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Paixão

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Paixão, sangue, espinhos. Dor, lágrima, chão, terra. Passos trôpegos; pano arrastando na pedra. Olhar perdido no azul; garganta seca de voz.   Ombros tensos de indignação. Humilhação? Paixão, Amor.   Na praia os passos foram apagados; No ar, as palavras voaram; a terra seu sangue sugou. Agora é espera. Espera da luz, do perdão, do arrependimento.   Como Êle, todos têm seu calvário. Dor, lágrimas e paixão. O importante é renascer. Sempre. A cada minuto, a cada jornada. Até o grande banquete quando enfim o Pai afastar este cálice!        29/março/2013

Espalhando letras - a origem

  Gavetas cheias. Cadernos – pequenos, grandes, em espiral.  Agendas, guardanapos. Amarelados, amassados, lambuzados. Marcas de batom, de chocolate. Papel rosa, azul, de seda e, até de embrulho. Folhas emboladas se atravancam; se empurram. Palavras disputam espaço com o logo do restaurante e do bar. Enchem qualquer brecha. Passeiam livres por todos os lados, em qualquer direção. Linha, pra quê te quero? Algumas, com direito a desenho. À la Picasso. Qualquer pedaço de papel serve, em algum tempo, para guardar uma emoção, um momento. Abrindo gavetas ouço o grito de liberdade das letras, das histórias. Textos querem sair, ser trabalhados e lidos. As ideias precisam germinar para não morrer. Guardar por quê? Para quê?   A internet me dá a coragem: gavetas abertas.   Seleção, retoques, para depois atirar ao vento, espalhar para o mundo. ― Primeiro eu! Sou mais antiga.    ― Ah, mas sou a mais interessante... ― Sou mais fr...

SANTA SEDE: Tim-Tim por Tim-Tim*

    Sempre gostei de mesas de bar. Vazias, à espera de pernas para entrelaçar entre as suas; mesas cheias, confusão, bebida derramando num gesto inesperado de alegria - gargalhadas. Mesa para dois no cantinho escuro; para quatro ou mesa para três (o voto de Minerva): “só mais uma, a saideira”!    Ou a mesa para um, com copo suado de tanto esperar, manchando com lágrimas a madeira. Mas mesa de bar para escrever, só em tempos de Sabino, Rubem Braga. Então chegou a Santa Sede e a mesa, ou melhor, as mesas, discutiram, criticaram, noticiaram. Foram o palco de vidas sonhadas, vividas, sofridas e desejadas. Sempre sujeitas aos humores, aos incômodos, aos sabores ali depositados. Testemunhas da sede de um grupo unido por um mestre que distribuiu as cadeiras de forma que esta mesa em esp ecial fizesse história! Salve Rubem!              *Tim-tim por tim-tim, além de ser o som dos copos brindando, m...

2.012 - SERÁ O FIM???

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Entardecer no Refúgio do Villagio - Gramado A Terra gira, a Lua encanta, e o Sol, ah! o Sol, aquece nossas vidas e nossos corações ― mesmo durante as quadraturas com Vênus. Até um novo amanhecer.               A cada novo ano que se aproxima, estantes ficam repletas de revistas com previsões astrológicas indicando os novos rumos da humanidade. Com 2012 não foi diferente. Ou melhor, foi, na medida em que chegou com o anúncio do fim do mundo.             Estudiosos, experts na leitura das estrelas, e conhecedores dos mistérios guardados nos anéis, descrevem o calendário Maia, entre outras fontes, como o grande responsável por este prognóstico. O dito calendário termina em 21.12.2012. Depois, dizem, será o caos.             O que pensar, diante da perspectiva de que tudo o que ora vivemos, vai a...

A Viagem

A viagem (1988)          Praia calma, águas mansas. Tudo pronto para o embarque: - Passageiros a bordo!          J angada, lancha ou barco; a penumbra não deixa clara a visão. Seja o que for, vai fazer o transporte destes corpos que se acomodam, confortavelmente, para a travessia.          A embarcação se desloca suavemente. Nem se percebe seu movimento. As águas mansas acariciam a madeira do casco. Um leve tremor começa a ser notado. Sem pânico.            Ventos sopram, quentes, instigando a todos: calor. Gradativamente, vento e água iniciam um movimento, dançam juntos, agitando, ritmados a embarcação.            Entre gritos e gemidos de “perigo à vista”, o barco se desloca, agora convulsivamente. Embalado pelas ...

O sonho como passageiro

O sonho como passageiro             Como fazia há dois anos, quando começara a trabalhar nas ruas, ele estava com o carro estacionado no ponto de Taxi a que servia. Distraído, ouvindo as últimas do futebol aguardava um passageiro ou um chamado pelo rádio. Vez por outra, tirava um cochilo.               A manhã fora fraca ― talvez tenha sido o frio. São poucos os que se encorajam de sair quando sopra o Minuano.             ― Só mesmo por compromisso ― pensava olhando o céu carregado.             Uma leve batida na janela lhe tira daquela preguiça.             A porta se abriu e um perfume suave, seguido de uma linda mulher entra no taxi. Linda. Ele nunca vira alguém assim. Pensava es...

A colheita da marcela

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A Colheita da marcela             É cedo, madrugada ainda e meu pai me acorda para colher marcela. Assim temos feito sempre, nas Santas Sextas-feiras. A preguiça de levantar da cama acaba quando lembro o quanto é divertido o passeio até a Serra: aventura e contratempos  ―  pneus furados, radiador aquecido.             Num salto, pulo da cama. Visto as roupas colocadas de véspera sobre a cadeira. Calça comprida, tênis, e casaco. Tomamos um rápido café e saímos. No carro, reparo que as ruas estão desertas e pela janela aberta o frio da manhã gela meu rosto. Aos poucos, a cidade começa a acordar e as luzes das casas vão sendo acesas. Vejo movimento nas ruas, pessoas entrando em padarias, lojas abrindo portas, e o barulho estridente das cortinas de aço sendo levantadas.             Já na estrada começa o amanhecer; imagino uma lanterna fraca colocada no horizonte. Me...